O analfabeto funcional, esse sobrevivente!

Quando a Volkswagen iniciou sua produção de carros no Brasil importou máquinas e operadores para sua fábrica em São Bernardo do Campo. Para o torno de verabrequins “importou” um alemão brancão, grandão, meio quieto que logo de chegada exigiu “uma ajudante”. Pois bem, puseram lá a seu lado um “baianinho” pequenininho, moreninho, cuja única semelhança com o alemãozão era falar pouco. E assim foram trabalhando. O alemão, em sua máquina maravilhosa, produzia 20 peças por dia. O brasileirinho fazia tudo que lhe pedia. No começo não entendia nada do que ele falava. A comunicação era por mímica. Com o passar do tempo começou a atender por decifração: não sabia o que as palavras do estrangeiro queriam exprimir mas entendia o significado. Não conseguia entender as inscrições da máquina mas sabia, por exemplo, que onde estava escrito “achtung”  era bom não mexer. Tudo corria bem até que um dia o alemãozão adoeceu e precisou ser internado. Não tinha jeito: ou o baianinho assumia ou a fábrica precisaria “importar” outro alemão. Para surpresa geral o brasileirinho topou a parada de substituí-lo: “deixa comigo, é mole!!!”. Assumiu e, outra vez para surpresa geral, não só sabia tocar a máquina como passou a produzir mais do que o seu titular, quase o dobro, com a mesma precisão. Essa história me foi contada pelo Nassil Oliveira um mineirinho esperto de Três Pontas que de funcionário burocrático resolveu virar industrial montando uma fábrica de “bits e bedames”, no quintal da sua casa, para fornecer à Volkswagen – a N.V. Oliveira Ltda. É bom que se diga que a N.V. Oliveira teve grande sucesso. Do quintal foi se estabelecer na Florêncio de Abreu, aqui em São Paulo! Dois exemplos de sucesso: o mineirinho e o baininho.

O nosso brasileirinho, um Severino qualquer, é o exemplo acabado do analfabeto funcional. Sabia fazer mas não sabia ”porque”. Era como se falasse e não soubesse escrever. Era produtivo mas dificilmente conseguiria ensinar alguém a trabalhar eficazmente além daquilo que aprendera com o alemão.

Esse fato deu-se pelo ano de 1959. Pois bem, até hoje, na indústria gráfica a situação ainda guarda traços desse tipo de  aprendizado dos primórdios da industrialização. O cara aprende na marra, repetindo os acertos e erros do seu “professor” também formado na marra.

Estamos falando de 50 anos de organização industrial. Nesse tempo ocorreram mudanças significativas no modo de produzir, na forma de capacitar, no jeito de dirigir. O modelo autoritário de gestão do século passado foi substituído por métodos mais abertos de decisão. Porém, o analfabeto funcional ainda existe aos montões. Sobreviveu.

O desencanto com a organização

É comum, nas gráficas, um certo desencanto com iniciativas de organização que pouco tempo depois de implementadas acabam se deteriorando e se perdendo. Não há continuidade. Esta realidade tem se repetido em muitas empresas e isto se deve, basicamente, a dois fatores principais: o primeiro é que a organização é trazida de fora e aplicada com pouco ou nenhum esforço de capacitação dos funcionários e o segundo é que não há nenhuma preocupação com a capacitação de novos funcionários que entram para a empresa sem uma preparação adequada, sem integração prévia. O primeiro fator está relacionado ao método de trabalho e o segundo à rotatividade que, em maior ou menor escala, há em todas as gráficas.

Capacitação e treinamento

No primeiro caso, a capacitação inclui os treinamentos. Estes devem ser realizados à exaustão para nivelar os mais com os menos aptos na aplicação de procedimentos. O treinamento transforma o conhecimento em habilidade de aplicação. Nesse sentido a aquisição de conhecimento precede o treinamento e é mais importante do que esse. O conhecimento propicia a aplicação de métodos de trabalho ou tomada de decisões em situações novas. O treinamento melhora a performance de execução em situações conhecidas.

O RH falando a linguagem do chão-de-fábrica

Na indústria gráfica de hoje o conhecimento de princípios de gestão e de TI são fundamentais para a geração de informações e a manutenção de um foco de inteligência aplicada. As técnicas de gestão são tão importantes quanto o ato de produzir. Ambas têm lugar permanente na empresa.

O segundo caso está relacionado ao cumprimento de normas e procedimentos e de funções dentro da estrutura organizacional. Estes temas devem ser abordados à luz dos princípios de RH um setor que só recentemente começou a ganhar importância nas empresas gráficas.

Ùltimamente esse esforço manifestou-se de maneira superficial com a adoção de um repertório neologístico  da moda com a promessa de ser a panacéia para todos os males da empresa. O funcionário foi transformado em “colaborador” e técnicas de motivação foram aplicadas com a pretensão de substituir o conhecimento pelo voluntarismo ou pela inclusão “comprometida”. Nada mais artificial!

O comprometimento com a qualidade, com a produção ou seja lá com o que for tem início no conhecimento teórico ou prático. Essa amplitude de esferas de aplicação só pode ser compreendida e transformada dentro de princípios de gestão de RH com toda sua carga de polivalência, da estatística à psicologia.

Para uma adaptação radical às essas demandas a estrutura funcional das gráficas precisa refletir as mudanças do modo de produção para que possam se modernizar. A passagem das gerências de RH da “caixinha” para a existência real forte, prestigiada e com iniciativa, a equiparação dos níveis de TI com os da Produção são passos seguros nessa direção.

Quando isso acontece o analfabeto funcional que povoa  essas empresas pode se reciclar pelo resgate de suas qualidades e pelo encontro com o conhecimento. E aí ganham os dois: empresas e empregados.

Autor: Luiz Gonzaga d'Avila Filho