Karl Marx e a tipografia

Estou escrevendo em um computador portátil que “compõe” o texto que vou datilografando, Perdão! Digitando. Isto que poderia parecer impossível há alguns poucos anos atrás é uma realidade viva e até meninos recém alfabetizados executam o ato de compor com tanta ou mais habilidade que os tipógrafos especialistas do início do século XX.

O destino de alguns dos melhores recursos de comunicação como os jornais parece estar definitivamente selado e atirado ao chumbo da história já que este elemento químico foi substituído pelo meio magnético de composição. A internet, os e-mails ganham, cada vez mais, os espaços ocupados pelos antigos meios de comunicação hoje conhecidos pela denominação genérica de mídia. É emblemático o caso do blog coreano que é visitado por 700 mil internautas diariamente!

Diante de fatos desse naipe é de se estranhar que ainda haja quem estranhe as voltas que a indústria gráfica vem dando. O último bastião dessa revolução está caindo com a nota fiscal eletrônica. É um símbolo definitivo dos novos tempos.

Na sociedade do futuro o trabalho do homem consistirá em executar funções simples como a de apertar botões em máquinas cibernéticas. Em parte esse futuro está acontecendo! Os caixas eletrônicos, as fotos digitais “reveladas” na impressora doméstica são manifestações importantes de uma modernidade que não tem volta. Um dos pioneiros dessa previsão foi nada mais nada menos do que Karl Marx nos seus estudos sobre o desenvolvimento da sociedade.

Mas, não precisaríamos ir tão longe para esse exercício de futurologia. Os empresários do setor gráfico brasileiro já conhecem algumas de suas versões. Os períodos de aumento e retração da demanda já não seguem mais o calendário gregoriano. As tiragens são cada vez mais segmentadas e sofisticadas. Inúmeros tipos de impressos, como papel-carta, sumiram do mercado.

No entanto, o conhecimento de saber como está não resolve o desafio de como vai ficar. Este é o nó da questão!

No meio de tantas dúvidas, porém, existem algumas certezas:

1.    A impressão digital doméstica e comercial assumem, rapidamente, imensa fatia do mercado antes reservada apenas às gráficas comerciais; a produção sob demanda se transformará numa atividade doméstica;

2.     O segmento editorial sofrerá expressiva concorrência da TV digital e declinará à medida que as escolas se munirem de computadores, mas sobreviverá em grandes formatos porque os ensinamentos da escrita e de algumas ciências continuarão com seu caráter de massa e continuarão dependendo da prática sobre papel;

3.    A internet determinará o fim da área promocional. Os consumidores serão “decodificados” por cadastros “inteligentes” e terão produtos selecionados em listas rigorosamente atualizadas e colocados em seus escritórios ou moradias.

4.    O segmento de embalagens em cartão e flexíveis crescerá e se sofisticará transformando-se quase num “produto em si mesmo”.

Mas, tanta futurologia só tem sentido se dela pudermos extrair algumas conclusões capazes de nortear ações e investimentos. Vamos a elas:

1.    A capacitação profissional, além do conhecimento para operação de máquinas, compreenderá o conhecimento teórico para a manipulação de instrumentos de controle de qualidade e controle dos fenômenos que se verificam durante o exercício do trabalho;

2.    Os agentes da produção deverão ter espírito crítico desenvolvido e serem capazes de “interpretar” a aplicação dos procedimentos de trabalho;

3.    Os métodos de trabalho se basearão cada vez mais na colaboração e iniciativas pessoais e levarão muito em conta o conhecimento prático dos agentes da produção nos seus postos de operação;

4.    Os papeis dos gerentes de TI e de Processos terão tanta importância quanto ao do Gerente da Produção;

5.    Os recursos de TI serão tão importantes quanto os meios de produção;

6.    A logística, entendida como a tangência da empresa gráfica com seus clientes, deverá ocupar o centro da valorização do produto gráfico.

Propositadamente ocupa o topo da nossa lista futurológica preocupações com os agentes da produção (os funcionários hoje, também, impropriamente chamados de colaboradores) ao invés do cliente um lugar comum nas diversas “academias” de vigorosos teóricos dos lugares-comuns. Não, definitivamente não é o cliente o principal alvo das preocupações dos empresários, mas a qualidade dos serviços que presta ou pode prestar a seus clientes. Nessa linha de raciocínio a lógica de cuidar de quem faz é automática uma vez que é possível agregar conhecimento e qualidade aos “colaboradores” que vão executar, no seu campo de ação, um projeto para alguém de fora de seu raio de controle: o cliente.

Não é só por isso. A mudança das demandas para a indústria gráfica, a modernidade a que nos referimos, exige do empresário grande domínio de meios não produtivos como os da informação. Uma gráfica sem segurança de dados, por exemplo, não só não serve a nenhum cliente, ela não serve a si mesma como estrutura de produção porque está sujeita à ação deletéria de “predadores” informatizados.

Por essa e outras razões é que à medida que nos afastamos da origem tipográfica comum nos aproximamos cada vez mais de um mundo em que o papel do homem cresce em importância e subverte conceitos seculares – para o bem e para o mal

Autor: Luiz Gonzaga d'Avila Filho